
A IMENSIDÃO DO ALTAI
"Estou no meio do nada, no cu de Judas, num ponto tão distante - tão distante! - que nem sequer em criança imaginei visitar quando passava horas a fazer rodar o Globo e a descobrir destinos mais longínquos e mais exóticos."
Bárbara Baldaia
Claro que a culpa era de uns desenhos animados que existiam na altura, com Willy Fog na sua Volta ao Mundo em 80 dias, inspirados na obra homónima de Julio Verne.
"Eu acho que aqui nem o Willy Fog veio", pensei eu enquanto chegava ao cume do Malchin, na Mongólia, a olhar para a Rússia e para a China.

A planície é imensa. Estende-se por dezenas e dezenas de quilómetros desprovidos de árvores e envolvidos por montanhas cujos cumes estão cobertos de neve.
Ela chegou montada a cavalo. Vimo-la a emergir no fio do horizonte. À sua frente, toda aquela incomensurável imensidão das planícies do Altai.
Vestia um colete grená por cima de uma camisola cor de rosa. Na cabeça, uma boina no mesmo tom cobria-lhe uma trança larga. O rosto era redondo, de olhos rasgados, as faces muito rosadas. Saltou do cavalo e subiu a um monte. De binóculos, perscrutava a paisagem à procura da sua manada de cavalos. Não avistando sinais, desceu o monte em passo de corrida, ajustou a sela, enfiou a bota no estribo e voltou a montar. Uma deusa. Fiquei sem saber o nome ou idade daquela mulher envolta em mistério. Levei as mãos à cara. Estaria a sonhar ou a assistir na vida real a uma cena que parecia tirada dum filme?
Este é provavelmente o episódio que me perseguirá durante mais tempo, entre os que vivi na Mongólia.


Já muito perto do cume do Pico Malchin, fazemos uma pausa para descanso e para repor calorias. Esta é a fronteira da Rússia e ali está o pilar número 1, que marca o início da Mongólia.
Estamos onde a Mongólia começa.
Fico a olhar para a paisagem, consciente de que estou a encarar a Rússia, embora o prado verde deste lado seja exatamente igual ao prado verde do lado de lá.
À esquerda temos a China. Ou seja, estamos exatamente no vértice dum triângulo entre a Mongólia, a Rússia e a China. No meio do nada.
O yurt tem camas a toda a volta, pequenas e estreitas, onde dorme a família. No centro está uma salamandra com fogo, onde cozinham e fazem chá. Há uma mesinha baixa e sentamo-nos no chão. Nas paredes, há alguns quadros e objetos de artesanato.
São as mulheres que decoram as casa. A elas cabe-lhes tratar de tudo o que acontece dentro do ger (decoracão, cozinha, limpeza). A elas cabe-lhes tratar de tudo o que se passa fora do ger (nomeadamente caça). Oferecem-nos chá com leite. Esforço-me por beber um pouco, para agradecer a generosidade de nos receberem em sua casa. Mas não consigo dar mais que um gole. Andamos há demasiados dias a comer carne de carneiro. Tudo aqui é feito com base em carne ou leite de carneiro., cujo sabor é intensíssimo.
Os mongóis alimentam-se à base de carne e há uma grande incidência de cancro do estômago na população. Ainda assim, continuam a alimentar-se à base de carne.

Acho piada aos nomes que eles dão aos sítios. Agora estamos a passar do Vale do Rio Branco (banhado pelo Rio de Leite) para o Vale Negro. Em ambos os locais, vive o povo nómada Tuvan, que tem a sua própria língua e tradições e que crê fortemente no xamanismo.

Quando chegámos ao acampamento, a equipa local já tinha montado as tendas. O sítio é maravilhoso. Junto ao rio, pastam dezenas de cabras. O verde da relva está vívido e contrasta com o azul do céu e o branco do Milky River. O rio tem este nome por parecer ter um leito de leite. O branco fica a dever-se aos sedimentos que escorrem da montanha glaciar e que se acumulam nas águas. Fica fácil de perceber porque é tão gelada esta água.
TRAVESSIA NO ALTAI DA MONGÓLIA
Este programa será marcado pela descoberta dos glaciares e dos lagos azuis cintilantes. Faremos a ascensão do pico Malchin acampando sob as estrelas e abraçados por vales imponentes. Nesta região pouco frequentada, faremos um dos trekkings mais bonitos do Altai. Uma viagem incrível, que ficará gravada na memória e no mapa de experiências de cada um.

