
LONGE POR FORA, PERTO POR DENTRO
Caminhar e viajar no mundo interior é outra forma de estar aqui. O aqui não é só a relva que separa os meus pés da terra, não é só a paisagem que me envolve. Não basta respirar. Existem muitos lugares e tempos simultâneos em cada instante que vivemos.
Diário da viagem à Cordilheira Huayhuash.
Texto e fotografia de Tiago Figueiredo
Dia 1. Foi uma maratona de mais de 24 horas, entre aviões, escalas em aeroportos e estações rodoviárias, antes de apanhar, por fim, um autocarro para chegar até Huaraz, já mais próximo da cordilheira Huayhuash. Antes, à chegada ao aeroporto, em Lisboa, dei conta de me ter esquecido do passaporte em casa. Com o trânsito da ponte, era impossível voltar atrás. Salvou-me o João, que abriu caminho tão depressa que ainda acabei por esperar na fila de check-in, com uma vaga sensação de drama interrompido. Foi perícia, vontade e muita amizade. É de guardar bem guardado, o João.
Em Lima, tive tempo para provar as sandes de leitão e chicha morada, o sumo peruano à base de milho roxo, e passear nas ruas em volta do mercado junto ao terminal de autocarros, a fazer horas para o último embarque do dia (com viagens e jet lag, é estranhíssimo chamar dia ao que quer que seja). A periferia da cidade não é a zona mais bonita de Lima, mas existe e há que olhar e ver aquela parte do mundo.

A viagem para Huaraz fez-se a ler e a dormir. Ainda não comecei a caminhada e já tenho o corpo exausto de tantas horas sentado em aviões e autocarros. Foi rápido fazer tanta distância, mas custa.

Dia 2. O dia começa cedo, para um trekking de aclimatação à altura. Huaraz é uma cidade feia, típica de aglomerados urbanos de crescimento demasiado rápido, mas com um encanto próprio. Agora, com a distância do tempo, sinto vontade de lá estar. O mercado é frenético, há bons restaurantes, dois ou três cafés que merecem a visita. E, claro, a viagem na memória fica facilitada pela sensação de férias e de despreocupação.
A caminhada pela montanha parte de um ponto mais alto do que Huaraz, já apenas rodeado de natureza. A partir daí, até ao lago Churup, é sempre a subir, ora em caminhada, ora em degraus, ora mesmo em pequenos troços de escalada de nível principiante. Nada disto seria complicado para alguém saudável se fosse praticado ao nível do mar, mas o ponto de partida é já acima dos 4000m de altitude.
O coração bate mais depressa, chega a doer, mas, diz quem sabe, é normal. Os relógios digitais mostram sempre pulsações acima das 130 por minuto, constante ao longo da caminhada, com picos mais altos nos troços mais desafiantes. A mochila não traz mais do que fruta, água, barras energéticas e protetor solar. Mas pesa. Tudo pesa. Cada passo, cada pedra, cada respiração. Há quem caminhe e converse ao mesmo tempo. Não sei como conseguem. Eu já abandonei delírios de atleticismo há muitos anos. A minha ambição é modesta. Quero aguentar os cinco dias de caminhada sem precisar que me levem ao colo. No grupo vai a Gabriela, 72 anos. Vai à minha frente, sem mostrar sinais de cansaço. Caraças, pá!
No topo da subida prevista surge o lago Churup. Só trouxe comigo uma lente de 35mm. Se quiserem ver a amplitude da coroa, vão à net. Aqui, deste que vos escreve, não esperem muito mais do que as fotografias possíveis de quem vai com o relógio a arfar, acima das 130, com a Gabriela a saltitar entre pedras e o resto do grupo a pôr a conversa em dia.

Até a descer a montanha, que para mim é mais fácil, me consegui aleijar no joelho que o andebol deixou órfão de menisco. A cabeça dói da falta de oxigénio, tenho o sono de um recém-nascido. Isto tudo no primeiro dia. Caraças, pá!

Dia 3. A madrugada foi de arrumações. De toda a roupa que trouxéramos para a viagem, havia que escolher a mínima indispensável para ir connosco no trekking de montanha. Preparávamo-nos para seis dias de caminhada pela cordilheira Huayhuash, guiados pelo Pedro e com o apoio logístico de uma equipa local, com tendas, cozinha e mulas para carregar o que não vai às costas de um acampamento para o outro. Fazer a mala implica consciência. Alguém vai levar isto. O que é supérfluo fica no hotel. De Huaraz até Huanuco Pampa são cinco horas de autocarro. A duração das viagens começa a ser relativizada. Foi a maratona de aviões. As oito horas sem paragem entre Lima e Huaraz. Tudo isto é enorme e é tudo longe. Demora, há que aceitar.
Mas não tinha passado ainda uma hora de caminho e um estoiro, seguido de um flap-flap-flap-flap, sobressaltou todos no autocarro. “O que foi isto?”, “Que susto!”. O autocarro não abrandou sequer. “Deve ter sido alguma pedra que bateu no chassis”. Não demorou muito a sermos ultrapassados por um camião que nos fez sinal de alerta. Encostámos à berma. Um dos pneus, recauchutado, tinha mesmo rasgado por completo. “Ay, ay, ay…”, suspirou o motorista. Deve ser mais habitual do que os nossos juízos europeus imaginavam. A equipa logística articulou-se bem e em meia hora já estávamos de novo a caminho.


Em Vaipass, voltámos a parar. Um mecânico trocou o pneu inutilizado por outro em melhores condições. Uns aproveitaram o descanso para beber uma cusqueña, a super bock local. A Bárbara comprou um queijo. A Milagros, a peruana mais bonita que vi em todo o Peru, disse-me que havia coisas mais interessantes para fotografar do que as traseiras da loja. “Sobe ali ao fundo e consegues ver o vale”. Subi. Era quase tão bonito como a Milagros. Mas a beleza dos vales ainda só agora tinha começado a surgir.
Em Huanuco Pampa montámos finalmente as tendas. Havia ainda algumas horas de dia pela frente, podia ter ido fotografar ao redor, mas sentia-me tão cansado dos dias anteriores que me deitei e só acordei para jantar. Isto vai ser mais difícil do que imaginava.
Dia 4. Acordo de madrugada, antes do sol nascer. Foi a primeira noite em tenda. O frio lá fora mete medo. Durmo num saco-cama de montanha preparado para temperaturas negativas. Tenho várias camadas de roupa vestidas. Não quero ter frio, tenho traumas. Quero aproveitar o crepúsculo para fotografar. Quero ouvir o silêncio. Saio da tenda com um gorro e dois pares de luvas, mas as mãos ardem do frio. Não há rede de telemóvel, não há internet. É uma sensação boa. Não preciso saber o que se passa no mundo. Não preciso de ler as primeiras páginas dos jornais, ver actualizações nas redes, conferir emails. Deixei o trabalho em pausa. Quero estar aqui. Há quanto tempo não estou aqui? Cheguei ao Peru e integrei-me num grupo de pessoas que não conhecia. Nem sempre é fácil, para mim. A viagem corre assim em pelo menos dois planos, um exterior - o da minha relação com os outros - e um interior - a minha relação comigo, com as minhas questões, os pensamentos e gavetas de problemas a resolver. Costumo abrir muito estas gavetas quando caminho.


É tudo longe, não sei se já referi. Há uma crítica justa que se faz ao urbanismo modernista, o de Corbusier e de Niemeyer, por se embebedar com o planeamento e esquecer a dimensão humana. A engenharia permitiu a construção de edifícios grandiosos que precisavam de largas avenidas. Mas as pernas dos homens não acompanharam a evolução e tornaram-se curtas para as distâncias entre prédios, ruas e bairros. Só que uma coisa é brincar aos deuses com as casas das pessoas. Não se faz. Outra coisa é fazer o universo em sete dias e preparar estas cordilheiras para os dinossauros. Por isso, depois de arrumarmos as tendas, fizemos mais umas horas de autocarro por íngremes escarpas sem margem de erro, até Queropalca, onde nos juntámos à restante equipa logística. A partir daí, o caminho é feito a pé pelo vale glaciar, quase sempre a direito. Depois do cansaço dos dias anteriores, foi um alívio fazer o percurso sem dores nem martírio.
Não há fotografia que faça justiça à imensidão do lugar. Tudo é tanto, seja o vale, as rochas que se encavalitam ou os cumes que avistamos, com mais de 6000 m de altura onde foram vividos dramas que deu origem ao filme Touching the Void, conta o Pedro. Um amigo que sacrificou outro para não morrerem os dois. Acabaram por se salvar, mas a amizade ficou na montanha. O assunto lembrou-me um documentário que vira recentemente. No momento exacto em que o ia dizer o nome, esqueci-o. É um sintoma da altitude. O cérebro não está a funcionar da mesma forma.
Chegamos à lagoa, a 4138 m. O nosso acampamento está num plano mais elevado, a meros 100 metros de caminho. A caminhada fácil das últimas horas criou-me uma errada sensação de facilidade. Bastou a inclinação da subida aumentar nem dez graus para o coração quase explodir. Chego à orla da coroa no limite das possibilidades, 163 pulsações, ofegante e zonzo.

O Pedro sorri, celebra a chegada de cada um de nós, mas está enxuto como se tivesse passeado na avenida dos Aliados. O Adan, o tratador das mulas, está solidário connosco, vê-se no olhar, mas estas montanhas são a casa dele. Era em tipos como o Adan e o Pedro que o Niemeyer e o Corbusier se inspiravam.

O dia nasceu bonito, com uma luz brilhante e foi possível montar as mesas do pequeno almoço no exterior. A Hermínia faz anos hoje. É por isso que estamos aqui, aliás, mas não me cabe a mim detalhar a explicação. No grupo há quem a conheça há 15 anos, mas a maior parte das pessoas viu-a pela primeira vez há 5 dias, o que não retirou carinho e verdade aos abraços que lhe deram.
Sempre tive muitas reservas a viajar em grupo. Por um lado, porque gosto muito de poder decidir o caminho a cada dia, sem depender de ninguém nem ter que esperar que todos estejam prontos. Por outro, porque é preciso sorte para sermos todos compatíveis nas personalidades. Um grupo, mesmo de conhecidos de longa data, pode ser difícil de gerir quando está junto 24 horas por dia. Por isso, na caminhada, é mais seguro ir à frente, ou atrás, conforme a disposição de cada um. Não há nada de mal nisto.
A energia muda. A nossa, a do outro, a dos alimentos, a do tempo. A meio da caminhada começa a chover. É preciso vestir roupa, cobrir com o impermeável, e juntar ao cansaço acumulado o desconforto do frio exterior e a difícil regulação da temperatura corporal. Chegados à lagoa, o mau tempo intensificou-se.
No final do dia, os sinais de cansaço no grupo agravaram-se. Constipações, sintomas gripais e algumas viroses não identificadas. Partilha-se paracetamol e anti-inflamatórios. Os mais experientes ajudam os restantes. Noto sinais de preocupação no Pedro, o nosso guia, que se desdobra a ver como cada um se sente. Conta histórias de outras expedições, mantém-nos o espírito com o calor que falta ao corpo. Une o grupo e acalma as diferenças. Cuida e vigia. Mas na cabeça dele, silenciosamente, há planos A, B e C a serem pensados caso alguém fique limitado para caminhar sem ajuda. A previsão meteorológica não é animadora. Vamos ver o que a noite trará.


Dia 6. Quando mais precisava de dormir, passei boa parte da noite acordado, com dificuldade em respirar. Não podemos culpar o telemóvel, ou o computador por não ter voltado a adormecer. Esta insónia não pode ser mascarada com atividade de ecrã. Sair da tenda para passear não é uma hipótese. As temperaturas são negativas. Fazer exercícios de respiração não é possível. Todos temos os narizes a sofrer com o frio e a altitude. Todos nos assoamos abundantemente, todos sangramos, todos temos já assaduras na pele. Mas não dormir acumula um cansaço que agrava todo o quadro.
Quando saio da tenda, de manhã, percebo que não sou o único em sofrimento. A Bárbara dá-me a tomar um guronsan que acumulo com anti-gripine. No cantil da água, vai uma mistura de sais minerais.
Mas a caminhada começou mal. A primeira metade do percurso, até ao topo da montanha, foi sempre a subir. Fui ficando para trás, cada passo que dava custava mais do que o anterior, não conseguia obter da respiração o oxigénio que os músculos pediam. O ânimo estava no ponto mais baixo desde que chegara ao Peru.
Connosco, desta vez, vinha um cavalo. As pobres mulas levam a carga, mas há um cavalo que faz a viagem apenas para urgências médicas. Hoje veio connosco pela primeira vez. É um animal maravilhoso, tal como as mulas, mas eu senti-o como se a sombra de um abutre me perseguisse. A Hermínia propôs-se levar-me a mochila. Não aceitei. “Não queres ir no cavalo?”, insistiu. Recusei mais uma vez.
No topo da colina, terminada a subida, foi um momento de viragem. Os medicamentos começaram a fazer efeito, e eu caminho melhor em descidas do que em subidas. Tenho pena de ter chegado tão depressa ao acampamento, no fundo do vale, e agora, a ver as fotografias, queria lá estar, mas foi difícil contrariar a euforia da recuperação do corpo.


Dia 7. Estão cinco graus negativos. Neva devagar, em pequenos flocos que fotografo sem sucesso. Depois da insónia de ontem e da provação da subida, dormi sete horas e meia, bastante mais do que o meu padrão médio. Sinto-me com energia para o trekking mais exigente da viagem. Ainda assim, aceito todas as substâncias que os meus companheiros têm para oferecer. Guronsan a seguir ao pequeno almoço, sais minerais na água para a caminhada, barras energéticas para ir comendo no caminho e gel para tomar antes da subida mais íngreme.
Desta vez, as conversas durante o percurso reduzem-se ao essencial. A paisagem é deslumbrante, a neve torna-a mágica, mas a temperatura e a ameaça de tempestade trazem uma sensação de urgência que nos silencia. É bom. O som dos passos na terra, sincronizados com a respiração, aliados ao frio no rosto, ajudam-me a mergulhar numa viagem astral que continua os diálogos e lugares que visitei durante os sonhos férteis que tive nestas noites, e que, pela primeira vez, consegui continuar depois nos momentos de vigília lúcida.
Sigo caminhando. Que diferença de ontem para hoje! Num troço mais acidentado, expiro com mais pressão e o Pedro alerta-me para que mantenha a respiração mais suave. Inspiro, expiro. Um, dois. Como uma meditação. A subida ao cume pareceu fácil, assim.
À chegada ao acampamento, estava estacionado o autocarro do hotel de Huaraz. “Olha! Querem ver se conseguimos ir já hoje?”. A dura decisão tomada na véspera seria para encurtar apenas o último acampamento, não o de hoje também. Houve hesitações. “As tendas já estão montadas, o almoço já está a ser preparado. Coitados dos homens!”. Mas termos um banho quente e lençóis lavados mais cedo… Fiz um chá e afastei-me. Sentei-me numa pedra a ver o riacho passar. Inspiro, expiro. Volto à viagem interior, estou a passar a fina fronteira entre mundos cada vez com mais facilidade. “É para ficar, não é?”, pergunto. “É, sim. Ainda há coisas a aprender.”

A Hermínia aproxima-se. Vê-me a chorar. “O que tens?”, perguntou. “Senta-te aqui, vou contar-te uma coisa”, respondi.

Dia 8. Não foi fácil despedir-me do acampamento. Por um lado, ansiava muito pelo conforto da cama e do banho e de poder ir a um restaurante e escolher numa ementa o que jantar, mas, por outro, estes poucos dias na montanha, sem net, permitiram-me aprofundar estados mentais, emocionais, fazer viagens interiores e integrar ideias, coisas não consigo fazer na cidade, rodeado de tecnologia.
Mas agora, a cada quilómetro de estrada que o autocarro percorre a caminho de Huaraz, sinto que estou a perder um tesouro que tive nas mãos. Tenho medo de não saber lá voltar. Tenho medo de me esquecer, mas também ainda não sinto vontade de voltar à montanha. O meu comodismo e necessidade de conforto fazem-me desejar voltar à cidade.
Mas entre curvas e contracurvas, para lá do ruído do motor em esforço para levar o autocarro a subir encostas, há um neurónio que me grita: “Não te esqueças disto! Não te esqueças de onde estiveste, dos estados meditativos que te permitiram viajar no tempo, a outras dimensões. Não te esqueças que é possível, tens tudo em ti. Não te esqueças.”
CORDILHEIRA HUAYHUASH
O circuito do Huayhuash é considerado um dos trekkings alpinos mais bonitos do mundo. Grande parte da rota situa-se acima do limite da vegetação, entre os 3300 e os 4300m, liga uma série de grandes lagos e contorna um grupo de montanhas que compreendem os 5000 e os 6334m.

