O mundo de Nárnia é um universo fantástico criado pelo escritor irlandês C.S. Lewis. Nárnia é um lugar onde a magia acontece, os animais falam e criaturas mitológicas abundam. É quase assim na Kungsleden.
NO MUNDO DE NÁRNIA
No passeio com raquetes, parecia que o mundo de Nárnia estava ali ao lado. As figuras das árvores, a neve com formas de animais, os sons e o vento.
Somos cinco nesta caminhada com raquetes de neve ao longo de 106 km. De Abisko a Nikkaluokta.
Texto de Ana Sancho


Dia 1. Abisko
Por aqui, o Sol está no horizonte. Pelas cores e luminosidade, parece estarmos noutro lugar diferente daquele em que estivemos em dezembro. O pensamento inevitavelmente leva-me para esse tempo, quando os tons rosa do nascer e pôr do sol ficaram registados.
No passeio com raquetes, parecia que o mundo de Nárnia estava ali ao lado. As figuras das árvores, a neve com formas de animais, os sons e o vento. Somos cinco nesta caminhada com raquetes de neve ao longo de 106 km. De Abisko a Nikkaluokta.
Kungsleden significa “caminho real”. O percurso foi criado há mais de um século pela Associação de Turismo Sueca e passa pelas zonas mais bonitas desta área. Foi assim que se tornou conhecido como “o rei dos percursos” ou “o caminho real”.
Dia 2.Refúgio Abiskojaure
Pequeno almoço na Abisko Turiststation: shot de gengibre, salmão, ovos mexidos, pão escuro, panquecas com doces frutos vermelhos e canela. Café para encerrar as iguarias.
O percurso de raquetes segue por um pequeno bosque. As árvores espaçadas e pequenas parecem arbustos a sair do branco. Encontramos uma cria com a sua mãe rena, que nos observa enquanto passamos. Não fazia ideia da opulência destes seres.
O refúgio onde estamos não tem net nem luz. Nem sei quando irei ficar contactável. Há nacionalidades diferentes neste refúgio. Imensos procedimentos de organização. Uma cooperação entre todos. Deixar abastecimento de água e lenha. As áreas e utensílios limpos para os que chegam.


Dia 3. Refúgio Alesjaure
Após uma longa subida, a vista para o lago gelado e o vale é fabulosa. No topo, há a pedra da meditação. Durante o percurso, apanhamos nevoeiro e neve no planalto.
Fazemos uma pausa providencial num abrigo de emergência. Um café com a neve derretida e uns lanches revigorantes. Quando saímos, o céu está num azul límpido. A turbulência tinha passado. Descemos o vale com céu azul.
Foi uma etapa longa com neve fofinha, que dificultava a progressão.
Antes de chegarmos ao refúgio, o vento rasteiro lembrava que os espíritos da neve se estavam a movimentar. Um efeito místico. Tipo Twin Peaks com banda sonora creepy.
Senti-me bastante cansada nesta etapa, estive tentada a tomar um gel energético. Vai ficar para amanhã, que a etapa vai ser longa.
Dia 4. Refúgio de Salka
O dia foi longo e o percurso muito bonito. Devem ter sido cerca de nove horas com algumas paragens. Decidi que não iria fazer a métrica nesta actividade, aliviar a necessidade de controlo.
Chegar a um local quentinho, acolhedor e com os rostos simpáticos dos parceiros é um privilégio precioso.
Os guardiões deste refúgio são uns senhores idosos, afáveis com sentido de humor. A senhora contou que estavam ali desde abertura da época até junho ou julho, depois mudam para outro.
Fiz uma tentativa frustrada de cortar lenha para a casa. Não fazia ideia que era uma tarefa tão técnica! Estou uma urbanobeta. Levei apenas as cascas secas para atear o lume. Enfim!…
A fome não era muita. O corpo cansado não quer alimento. O meu jantar foi uma carteira de sopa hidratada com tofu aos cubinhos enlatado, comprado na loja dos simpáticos guardas, e um toque subtil de pimenta preta.


Dia 5. Refúgio de Singi
Após um dia longo e dorido, a percepção dos 13kms percorridos hoje foi completamente enviesada. A chegada foi num instante, três horitas.
Estava a contar que o refúgio fosse após uma descida lá longe, muito longe. Quando, numa agradável surpresa, no meio do vale aparece um pequeno aglomerado de casas em madeira familiar na estrutura e disposição. A bandeira do STF (Svenska Turistföreningen) confirma.
À chegada, desta vez não me alambazei com a habitual bebida de boas vindas, um líquido adocicado de frutos vermelhos com a qual somos recebidos entre sorrisos e comentários acolhedores. Costumo beber uns quantos copos. Aquilo sabe mesmo bem após uma empreitada a andar.
Partilhamos esta casa com outros grupos que nos vamos cruzando ao longo destes dias:
O ambiente ao fim do dia foi animado. Havia uma rapariga sueca simpática que fazia a ponte entre grupos, conversava com uns e com outros.
Sair do beliche de manhã hoje foi mais exigente. Sentia-me um guarda-fato antigo com as dobradiças enferrujadas. Credo!
Dia 6. STF Kebnekaise
Estava entusiasmada com esta etapa. Havia uma subidita e depois tudo a descer.
Não esperava é que fosse um vale tão largo, com uns cumes arredondados e sempre a rolar. Ao fundo uma cascata azulada.
Numa descida encontramos um casal, cuja rapariga é conversadora. Estão com os skis ao ombro a admirarem uma montanha. É o Kebnekaise, o cume mais alto da Suécia com 2 096m. Pertence aos Alpes Escandinavos. Estamos a 150 kms do Círculo Polar Ártico.
Continuamos a descer até encontrarmos um bosque de bétulas escuro. Na encosta está um edifício comprido e alto. É o nosso próximo refúgio. Este é um luxo! Aquecimento central, electricidade, casas de banho no interior, restaurante, salão de estar. A sauna está num outro edifício com a cozinha comum. O jantar seria de faca, garfo e guardanapo. Aproveitei a sauna, o banho quente lento. Lavar o cabelo. Deixar os toalhetes de lado. Um pequeno prazer!


Dia 7. Nikkaluokta
Olhar através da janela confirma que lá fora está agreste. Saímos mais tarde do que o habitual. No átrio, despedimo-nos de algumas pessoas que iam em motas de neve.
O vento sopra animado a empurrar-nos encosta abaixo. Vamos próximos e ligeiros. Com este tipo de meteo, o que queremos é andar, ir identificando o trilho que se vai cobrindo com a neve. Próximo do fim do vale, atravessamos um longo lago gelado. O terec terec das raquetes no gelo e o som do vento parecem aumentar a distância que se prolonga. Nas bordas do vale, há cascatas de gelo. Na encosta, os picos arredondados parecem polvilhados de branco.
Começa a surgir o verde. Pequenos arbustos que corajosamente rompem na neve. As árvores já têm algum porte. No verão este vale deve ter campos verdes com riachos, árvores com folhagem fresca, animais e pessoas.
No fim de um percurso longo de dias, vento, frio, neve, dores nos pés e o cansaço acumulado, fico sempre emocionada com a chegada ao ponto que nos propusemos atingir. É um privilégio estar por aqui nestas andanças.
KUNGSLEDEN, O CAMINHO REAL
Caçar auroras boreais durante uma travessia de raquetes de neve no Kungsleden. É a isso que nos propomos neste programa cheio de momentos mágicos. Acredita que vai parecer-te um sonho, mas será tudo realidade.

