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UM LUGAR LONGE DO RUÍDO DO MUNDO



O Vale Secreto de Naar Phu é uma travessia por um dos recantos mais remotos e intocados do Nepal, onde as aldeias parecem suspensas no tempo e as montanhas guardam histórias que se contam em silêncio. 

Texto de Bárbara Baldaia

Durante dias, avancámos por caminhos esquecidos, cruzámos pontes suspensas sobre abismos e encontrámos quem vive longe de tudo mas tão perto da essência. Subimos ao Kang La Pass, a 5320 metros, onde o mundo se abre aos nossos pés e nos lembra a razão pela qual escolhemos estar aqui. Há lugares que não se explicam - sentem-se.

Naar Phu é isso: um lugar longe do ruído do mundo, onde o tempo abranda e a alma encontra espaço para respirar. 

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Os nossos telefones não têm rede aqui. Os aparelhos só saem da mochila para fotografar aquilo que achamos que mais tarde as palavras não vão conseguir dizer ou o que a memória pode vir a esfiapar em esquecimento.

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Ao terceiro dia acontece o encantamento. O deslumbramento. A primeira recompensa dos Himalaias. O dia é longo. Cerca de 10 horas a caminhar, a maior parte do tempo a subir. A exigência física é compensada pela paisagem. As escarpas, as cascatas de água sob as quais temos que passar, o fabuloso bosque. Tudo é imenso, imponente.

Vejo-me finalmente em cima de umas das pontes pênsil que namorei durante anos nas fotografias do Nepal, com as suas bandeiras de oração a oscilar ao vento. É nesse momento que atravessa um frémito de excitação: estou a realizar o sonho de uma vida.

Acordamos com uma vista para uma montanha de 7 mil metros, ao lado dos Anapurnas. A constatação provoca-me uma sensação de assombro e de irrealidade. "Eu estou aqui", vou repetindo mentalmente enquanto desço para a sala do pequeno-almoço.
Hoje vamos subir até aos 4100 metros e, por isso, entre café e chapati, o pão local, o Pedro vai medindo a saturação com o oxímetro.

Pelo caminho, encontramos pequenas rudimentares stupas. Devem ser sempre contornadas pelo sentido dos ponteiros do relógio, tal como a terra gira. Nelas, cada um deposita a sua pedra enquanto Tek, o nosso guia nepalês, nos ensina a entoar o mantra "Om mani padme hum". Seguramente, cada um de nós está a pensar num desejo que gostaria de ver concretizado, numa decisão para a qual precisa de arranjar o último arrebate de coragem, num propósito de vida que se busca incessantemente.

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"Diz-se que aqui se encontra o Shangri-La", explica-nos o Pedro. No livro de James Hilton, o Shangri-La é descrito como um lugar paradisíaco nos Himalaias, onde o tempo se cristaliza num ambiente de felicidade, saúde e convivência harmoniosa.

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Os nossos telefones não têm rede aqui. Ninguém perde tempo nas redes sociais. Não faço ideia em que dia da semana estou nem em que dia do mês. Ao tomar consciência dessa liberdade, sinto um sussurro de felicidade. De dúvida. Preciso de estar numa montanha remota do Nepal sem comunicações para sentir essa alegria de liberdade mais pura?

É nisto que penso enquanto subimos a enconsta a caminho do mosteiro de Phu, construído no século 11 e onde só se chega de helicóptero ou ao fim de três dias de caminhada.

"Diz-se que aqui se encontra o Shangri-La", explica-nos o Pedro. No livro de James Hilton, o Shangri-La é descrito como um lugar paradísiaco nos Himalaias, onde o tempo se cristaliza num ambiente de felicidade, saúde e convivência harmoniosa. Um paraíso terrestre que ninguém sabe ao certo onde fica. Talvez seja aqui, sim.

Cruzamo-nos com aldeões que levam carregamentos às costas cujo peso é suportado por uma fita à volta da cabeça. Asseguramo-nos que os outros também ficam impressionados com o que testemunham. "Viste aquilo? Incrível, não?"

A vida quotidiana das aldeias remotas provoca-nos impacto. "É surreal como eles levam literalmente tudo às costas pela montanha acima". Tudo o que precisam para viver é carregado às costas pela montanha acima. Lenha, gás, comida, vigas para construção.

Depois disto, cada um fica em silêncio, metido na sua vida a bendizer o luxo com que vive, a fazer balanços de passados, a lançar projetos de futuros. Cada um vai estudando os seus próprios pensamentos, fazendo sumário das suas liçoes.

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A montanha ensina a simplicidade, a paciência, a beleza das pequenas coisas e o espanto. Avassalador. Esmagador. 

O último luxo do dia é um banho, um fio de água quente a escorrer num cubículo em cimento frio.

Aprendi a não me queixar da vida com estas viagens. Nestas alturas, lembro-me muitas vezes dum, pequeno livro escrito pelo psicólogo catalão Rafael Santandreu, "A arte de não amargar a vida", em que ele dedica um capítulo à questão do conforto. "O conforto é bom, mas só na medida justa", escreve ele, acrescentando: "Quando o conforto já não for tão importante para nós, estaremos libertos desse fetiche, teremos menos manias e seremos mais livres para desfrutar da vida".

A passagem pelo Kang La Pass, aos 5320 metros, prometia tornar o dia no mais longo e duro de toda a expedição. E a promessa acabou por ser cumprida.

Uma vez lá em cima, celebramos a felicidade de quem achou que não ia resistir à escalada e também de quem batia ali um recorde de altitude. Absorvemos a montanha, mas a montanha também nos absorve. Testa-nos.

A montanha traz-nos as aprendizagens mais espirituais, mas também as mais físicas. Todas elas carregadas de emoções. A montanha ensina a humildade aos que vêm achar que são fortes e acabam por encontrar dificuldades e ensina a confiança aos que vêm com dúvidas sobre as suas capacidades e acabam por se superar.

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Na memória deste dia, ficaram retidos três momentos de prazer gastronómico.
O sumo de sea buckthorn (bagas de espinheiro amarelo que crescem no solo arenoso da Ásia central) é conhecido por revitalizar o corpo e repor todas as defesas naturais e, quando o bebemos perto de uma aldeia curiosamente chamada Braga, ajuda-nos a recuperar do desgate da véspera.

Mas é quando chegamos a Manang que o nosso consolo atinge os píncaros e é com a nossa figura que uma mulher nórdica sentada à porta do hotel se desata a rir: um grupo de portugueses baba a montra da pastelaria. Pães de variados tipos, croissants, bolachas de baunilha, bolos de chocolate, mas sobretudo a tarte de maçã e o cinnamon roll deixam-nos com água na boca.

Estava ainda reservado o tão famoso bife de iaque, servido numa chapa quente, com ovo estrelado e batatas fritas. A fome é tanta que a entrada fumegante dos bifes na sala das refeiçoes é recebida por um aplauso de todos. As viagens também se fazem das satisfações mais prosaicas, ora pois.

VALE SECRETO NAAR-PHU

 

Entre altas montanhas e uma grande variedade de paisagens, vamos descobrir a cultura local, conhecer o modo de vida das pessoas, a religião de Buda e percorrer as pequenas aldeias isoladas. Tudo com a certeza de um trekking excepcional.

Vamos entrar numa região não muito frequentada, onde descobriremos locais "mágicos". 

 

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