Sempre senti que as montanhas guardam mais do que desafios. Guardam silêncios, pensamentos, amigos e muitas histórias. Nem sempre é a montanha mais alta que mais nos transforma.

MAIS ALTO DO QUE O CUME


Há trinta anos entrei no alpinismo. Na altura, não sabia o que procurava. Era o passo seguinte depois de alguns anos na escalada em rocha. Talvez não fosse nada de concreto — talvez fosse apenas o apelo de estar lá em cima, longe de tudo, perto de algo que ainda não conseguia explicar.

Hoje, passadas três décadas, continuo a subir.
E continuo a procurar... 


Texto de Pedro Guedes 

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Mais do que um cume, uma transformação

“Porque subimos montanhas?"
É uma pergunta antiga, mas continua a ser feita por quem olha para o alto e sente, cá dentro, um apelo difícil de explicar. Para uns, é o desafio. Para outros, a beleza dos lugares remotos. Mas, no fundo, ninguém regressa o mesmo depois de subir uma montanha.

Quem sobe uma montanha sabe que não se trata apenas de chegar ao topo. É sobre cada passo até lá. Sempre senti que as montanhas guardam mais do que desafios. Guardam silêncios, pensamentos, amigos e muitas histórias. Nem sempre é a montanha mais alta que mais nos transforma.

Na montanha, não há distrações. Há o agora. O som, o cheiro do ar puro, a respiração. E, no meio disso tudo, há espaço — para pensar, para sentir, para simplesmente estar.

Subir montanhas é, acima de tudo, um espelho de quem somos. De como reagimos ao desconforto. De como lidamos com o outro. E de como seguimos quando a paisagem se torna dura, longa e crua.

A simplicidade que cura

A vida nas montanhas ensina-nos a viver com pouco: a mochila, a tenda, o grupo. E isso, curiosamente, basta. É sobre o frio, o silêncio, a superação. Sobre o cansaço que limpa a mente e o foco que nos devolve ao essencial. Ali, percebemos que a complexidade do dia a dia fica lá em baixo. Que o importante cabe num gesto, numa conversa ao entardecer, num nascer do sol a levantar na montanha.

É nessa simplicidade que, muitas vezes, nos reencontramos. E, mesmo sem o procurarmos, algo muda cá dentro.

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O que muda com o tempo?

Ao longo dos anos, subi milhares de vezes. Algumas montanhas técnicas. Outras muito altas. Outras tão pequenas que quase não se notam. No início, a motivação era o desafio. Depois, vieram as pessoas, a superação, os lugares remotos e os cumes.

Mas, com o tempo, percebi que aquilo que mais nos transforma é o processo. É o silêncio. É o frio a bater no rosto. É a conversa que surge. É o gesto de quem estende a mão no momento certo.

Subir montanhas é, acima de tudo, um espelho de quem somos. De como reagimos ao desconforto. De como lidamos com o outro. E de como seguimos quando a paisagem se torna dura, longa e crua.

Ser guia: mais do que orientar, é cuidar 

Há 17 anos tornei-me guia a tempo inteiro. E guiar é, também, subir montanhas com outro olhar.
Já não é só a minha experiência — é a experiência do grupo. É o olhar atento para quem fica para trás. É o equilíbrio entre segurança e liberdade. Entre rigor e espaço para sentir.

Guiar não é indicar o caminho. É criar condições para que cada pessoa encontre o seu.

A maior parte das pessoas acha que o guia é quem vai à frente, quem se senta no centro da mesa a dominar as conversas, quem faz rir - o protagonista. Mas, muitas vezes, também sou de silêncios. Vou no meio ou atrás da fila, mais perto de alguém que precisa mais de mim e, quem me conhece, sabe que me sento nos cantos da mesa.

Escuto. Observo. Sinto. E isso ensinou-me muito sobre liderança.

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Liderança: é mais escutar que ser protagonista

Na montanha, lidera-se com escuta. Com presença e com coerência entre o que se diz e o que se faz.
É nos momentos difíceis que se percebe o tipo de liderança que levamos connosco. E não me refiro só à liderança de grupo — falo da liderança interior. Aquela voz que nos guia e nos lembra do porquê de estarmos ali. 

Ser guia não é ter todas as respostas. É saber fazer as perguntas certas no tempo certo. É criar um espaço seguro onde os outros possam crescer, errar, superar-se. Às vezes, é simplesmente saber estar presente, atento e disponível.

Liderar não tem a ver com visibilidade, mas com responsabilidade. É olhar para o grupo e perceber quem precisa de apoio, mesmo quando não o diz. É estar atento aos pequenos sinais: um olhar cansado, um silêncio fora do habitual. É a forma como nos relacionamos e como cuidamos dos outros - e isso transforma tudo.

Quem já veio connosco sabe que levamos o coração. Algo tão simples, mas que diz muito sobre nós.

A força da equipa

Uma montanha nunca se sobe sozinho. Mesmo que estejamos a caminhar em silêncio, estamos sempre ligados — pela corda, pelo ritmo, pela confiança.

A equipa é um dos elementos mais bonitos de uma expedição. E também o mais imprevisível.
Somos todos diferentes: idades, motivações, histórias. Mas, quando começa a expedição, há algo que nos alinha. Partilhamos dores, paisagens, refeições simples. E, sem darmos por isso, criamos um elo difícil de explicar.

Já vi amizades nascerem num campo base e durarem uma vida. Já vi pessoas que mal se conheciam ajudarem-se como se fossem família. É essa força invisível da equipa que, muitas vezes, nos leva até ao cume.

Quem já veio connosco sabe que levamos o coração. Algo tão simples, mas que diz muito sobre nós.

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O que fica depois de tantos cumes

Ao fim de três décadas, o que fica? O que fica são os rostos das pessoas com quem partilhei o caminho. São os momentos de silêncio absoluto a olhar o nascer do sol a 6.000 metros. São os pequenos gestos de cuidado entre membros da equipa. São os dias em que pensei desistir de viver do alpinismo — e não desisti. São as vezes em que senti medo — e, mesmo assim, avancei.

Fica a certeza de que a montanha não é um lugar apenas de chegar ao cimo. É um lugar de verdade.E é isso que me continua a mover.

30 anos de Alpinismo e o Desafio do Ratna Chuli

Há trinta anos, quando dei os meus primeiros passos no mundo do alpinismo, não sabia, na altura, o quanto isso iria moldar a minha vida. Subir montanhas ensinou-me muito mais do que técnicas ou estratégias — ensinou-me sobre mim, sobre os outros, sobre escuta, humildade e paciência.

Este ano, em jeito de celebração, decidi voltar a liderar uma expedição muito especial: o Ratna Chuli, uma montanha de 7.035 metros, isolada, selvagem, ainda fora dos grandes circuitos. É, para mim, o símbolo perfeito daquilo que tem sido este caminho: desafiante, silencioso e profundamente transformador.

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Muito mais do que o cume

Chegar até aqui tem um peso emocional grande. Não é apenas sobre cumes ou montanhas. É a materialização de tudo o que aprendi e continuo a aprender.

Escolho os destinos por tudo o que representam: o lado remoto, pouco explorados, onde ainda se sente a autenticidade das pessoas e da paisagem. Não se trata apenas de chegar lá. Trata-se do que levamos e do que trazemos.

Hoje, procuro muito mais do que um cume. Sinto que a montanha pode marcar uma nova etapa, despertar algo adormecido ou simplesmente recordar o que realmente importa. Algo mais alto do que o cume.

© 2026 Espaços Naturais. Alpinismo e Expedição RNAVT nº8339