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ENTRE O BRANCO E O OCEANO

Crónica de uma expedição ao Urus e ao Pisco. E de um regresso com gosto a Lima.

Chegámos à Cordilheira Branca como se regressássemos ao nosso lugar de sempre, mesmo que muitos até estivessem ali pela primeira vez. Há montanhas que nos recebem com a força das muitas memórias que fizemos nesses lugares.


Texto de Pedro Guedes

Estamos no Peru, no coração dos Andes, a iniciar mais um programa de alpinismo com os pés firmes e o olhar a ganhar altitude. O plano é simples: aclimatar, subir o Urus, seguir para o Pisco e regressar com histórias para contar.

Na Quebrada do Ishinca

A entrada na Quebrada do Ishinca é, por si só, um rito de passagem. O início do vale dá-se numa paisagem com vegetação rasteira e muros de pedra solta. Vemos ao longe algumas casas dispersas de comunidades andinas que vivem ao ritmo das montanhas. Avançamos primeiro e as mulas seguem depois, carregadas com o essencial: tendas, comida e tudo o que vai sustentar a nossa presença ali em cima.


O caminho vai subindo lentamente, desenhando curvas suaves ao longo do vale. Passamos por riachos, por encostas salpicadas de pedras e por pequenas pontes de madeira rudimentares.

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Campo Base do Urus

Cada passo serve para ouvir o corpo e entrar no ritmo da montanha. O caminho até ao campo base do Urus não tem pressa. E nós também não.

Estamos no Peru, no coração dos Andes, a iniciar mais um programa de alpinismo com os pés firmes e o olhar a ganhar altitude. O plano é simples: aclimatar, subir o Urus, seguir para o Pisco e regressar com histórias para contar.

Chegamos com tempo, ainda com luz. Montamos as tendas numa clareira plana, com vista para o vale abaixo e, ao longe, já se vêem os glaciares. Um frio suave começa a descer com o sol. Fazemos chá quente. Comemos juntos. E deixamo-nos envolver pela quietude de quem sabe que amanhã começa a verdadeira ascensão.

O silêncio do Urus

Acordamos de madrugada para o ataque ao Urus. A luz da lua ainda toca os picos e a neve range sob as botas. Caminhamos devagar, atentos ao ritmo da respiração e ao som do vento. Ainda estamos a aclimatar.

O corpo, àquela altitude, torna-se frágil. É como se cada passo fosse uma pergunta: consegues mais um? Seguimos. Com calma, no meio de muitas conversas e espírito de grupo.

Quando o cume se revela, o céu está limpo e generoso. Dali vemos gigantes: Ranrapalca, Palcaraju, Tocllaraju. Montanhas maiores e mais técnicas. Mas naquele momento, nada parece acima de nós. Estamos juntos, no alto, a viver o que só quem sobe entende: um tipo raro de silêncio que não se encontra cá em baixo.

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A subida faz-se com desnível mais acentuado. Há passos em ziguezague e encostas com mais vista. O cenário é tão grandioso que o esforço quase se dissolve no horizonte.

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A caminho do Pisco

Depois da descida do Urus e de um breve descanso em Huaraz, voltamos à estrada. A viagem até à zona do Pisco é marcada por paisagens cinematográficas: curvas de estrada sobre vales profundos, desfiladeiros de pedra e pequenas vilas andinas onde o tempo parece ter parado. O contraste com os dias anteriores é forte, mas o corpo já está adaptado. Sentimo-nos mais leves, mais inteiros, mais prontos.

A entrada na Quebrada Llanganuco, onde começa o acesso ao Pisco, é uma das mais belas de todo o Peru. Dois lagos glaciares, de azul irreal, ladeiam o caminho de terra batida. Paramos para fotografar, para respirar mais fundo, para simplesmente estar.

Campo Base do Pisco

O percurso para o campo base do Pisco é mais exigente que o do Urus, mas a distância é curta. A subida faz-se com desnível mais acentuado. Há passos em ziguezague e encostas com mais vista. O cenário é tão grandioso que o esforço quase se dissolve no horizonte.

O campo base do Pisco está rodeado de montanhas de neve e gelo. Chegamos, montamos o acampamento e jantamos ao som do vento. Sabemos que o dia da subida começa cedo e que será longo. Mas também sabemos que vale sempre a pena subir.

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O branco do Pisco

Desta vez, faríamos a subida diretamente do campo base ao cume, num esforço longo, mas possível para quem já estava aclimatado. O que não contávamos era com o tempo. As previsões já mostravam instabilidade, mas, na montanha, o tempo é sempre uma incógnita.

Subimos rodeados por neblina densa. Nuvens que cobrem tudo, como se o mundo tivesse deixado de ter paisagem. Iniciamos a progressão na moreia e depois passamos para o glaciar. Está tudo aqui, menos a vista.

Fizemos cume

Cá em cima, no cume do Pisco, não vemos nada. Nenhuma linha do horizonte, nenhum vizinho nevado. Apenas branco e frio. É uma espécie de vazio, mas também é uma forma de estar no cume.
Não há desânimo. O que não se vê com os olhos, sente-se no pensamento. Fizemos cume!

Descemos e, sem grandes pausas, voltamos para Huaraz. O cansaço pesa nas pernas, mas o silêncio do cume continua connosco.

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Voltamos com menos ar nos pulmões, mas mais espaço dentro de nós. E com a certeza de que lá em cima, mesmo sem vista, vimos muita coisa. Já dizia o aventureiro Saint-Exupéry que "o essencial é invisível aos olhos"

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Mar, cidade e ceviche

No dia seguinte, deixamos as montanhas para trás. Voltamos a Lima, com o calor a devolver-nos outra forma de respiração. Já sem botas rígidas nem mochilas pesadas, passeamos pelas ruas de Barranco, onde a arte urbana mergulha nas cores e o Pacífico quebra logo ali em baixo.

Fazemos a marginal até Miraflores, junto ao mar. É um dia de ceviche fresco e pisco sour. Brindamos a nós. Rimo-nos muito. Falamos de tudo e de nada. O corpo relaxa e a mente tenta encaixar tudo o que aconteceu.

O que levamos connosco

Há viagens que se medem em distâncias, desníveis e altitudes. Esta mede-se em silêncios partilhados, em olhares no escuro, em palavras de encorajamento lançadas a meio de uma subida e em abraços no fim da corda. 


O Urus mostrou-nos o valor da aclimatação. O Pisco, com a sua paisagem escondida, ensinou-nos que nem tudo o que procuramos será visível, mas mesmo assim vale a pena subir. E Lima, com a sua luz, o seu peixe cru e o seu pisco sour gelado, ofereceu-nos o final perfeito: leve, vibrante, cheio de sabor.

Voltamos com menos ar nos pulmões, mas mais espaço dentro de nós. E com a certeza de que lá em cima, mesmo sem vista, vimos muita coisa. Já dizia o aventureiro Saint-Exupéry que "o essencial é invisível aos olhos".

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PISCO, URUS E ISHINCA

Prepara-te para uma aventura inesquecível no coração da Cordilheira Branca, uma das cadeias montanhosas mais belas e impressionantes do mundo. Durante 13 dias, percorremos trilhos andinos de cortar a respiração, cruzamos vales glaciares, acampamos em cenários de sonho e desafiamos os nossos limites em três ascensões inesquecíveis: Urus (5495 m), Ishinca (5530 m) e Pisco (5752 m)

 

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