
À SOMBRA DO TAVAN BOGD
No Altai da Mongólia, cada trilho revela vales profundos, rios glaciares e picos escarpados que parecem desafiar o tempo. A sensação de isolamento é intensa, como se o mundo moderno tivesse ficado para trás e apenas a natureza e a história ancestral permanecessem. A cada passo, somos convidados a observar detalhes que nos escapam no dia a dia: a forma como a luz toca os cumes, o som do vento nas estepes e o voo silencioso das águias acima dos vales.
Texto de Pedro Guedes
A imensidão das paisagens, as montanhas esquecidas e a autenticidade da cultura local continuam a surpreender-me a cada passo. Cada dia no Altai é uma descoberta e um desafio.
Ao ritmo de Ulan Bator
Chegámos a Ulan Bator com as mochilas ainda quentes da viagem e uma expectativa que parecia crescer a cada quilómetro de céu. A cidade recebeu-nos com o rumor do tráfego, restaurantes coreanos, espaços de karaoke e templos. Uma pequena capital onde o moderno se encaixa, a espaços, com o antigo. Entre ruas e cafés, alinhámos o pulso da expedição e os primeiros olhares trocados entre pessoas que se estavam a conhecer.
Percorremos Ulan Bator como quem tenta ler um livro novo: parando onde tudo flui, sentindo a cidade e observando as pessoas que ali vivem a sua rotina. Guardámos as imagens dos templos, dos museus e da praça de Genghis Khan. Ao fim do dia, a luz arrefeceu e as vozes noturnas tomaram as esquinas.


A caminho das montanhas
Um voo curto levou-nos até Khovd. Seguiu-se o transfer até Ölgii, e o mercado local abriu-se diante de nós como um atlas de cores e cheiros. Passeámos sem pressa, sentámo-nos numa livraria-café e colhemos pequenos fragmentos daquele rodopio local.
Em carrinhas UAZ sacudidas pelo pó, cruzámos planaltos até alcançar o Vale do Rio Branco. A estrada desaparecia e voltava a nascer. Cada curva prometia uma vista diferente. Quando chegámos ao Rio Branco, o vale estava ali, amplo e claro, e a água brincava com as margens como se não soubesse do silêncio que a rodeava.
As carrinhas UAZ são veículos russos robustos, projetados inicialmente para enfrentar terrenos extremamente difíceis e condições climáticas adversas. Fabricadas pela Ulyanovsky Avtomobilny Zavod desde 1941, estas carrinhas tornaram-se sinónimo de durabilidade e fiabilidade em contextos off-road, sendo amplamente utilizadas em regiões remotas da Rússia, na Ásia Central e em expedições de aventura em todo o mundo. A sua construção simples e resistente permite que sejam facilmente reparáveis mesmo em locais isolados.
Estas carrinhas, embora simples, oferecem uma experiência de condução que aproxima os viajantes da natureza e do ambiente circundante, tornando cada deslocação uma verdadeira aventura.


Campo Base do Tavan Bogd
Começámos o trekking em direção ao campo base. Os passos foram-se afinando ao compasso da paisagem: pedras que exigiam atenção, caminhos que se abriam entre ervas e o vento a marcar um tempo próprio. No Campo Base do Parque Nacional, temos um dos acampamentos mais bonitos da Mongólia.
A noite caiu sobre as tendas e os locais que cantavam noite dentro. As luzes do campo base abriam uma ilha luminosa no meio do caos da moreia glaciar.
Subimos o Pico Malchin. A montanha deu-nos tudo: um ar mais rarefeito, panoramas vastos e, no cume, uma sensação de suspensão. No cimo, na linha entre a Mongólia e a Rússia, era como se o mundo inteiro coubesse num sopro.
Pico Malchin, um dos cinco picos sagrados
Altai Tavan Bogd significa “Cinco Picos Sagrados”. Malchin é um desses cinco picos.
Subimos o Pico Malchin. A montanha deu-nos tudo: um ar mais rarefeito, panoramas vastos e, no cume, uma sensação de suspensão. No cimo, na linha entre a Mongólia e a Rússia, era como se o mundo inteiro coubesse num sopro.
A descida trouxe o corpo cansado, mas o espírito leve, como quem finalmente reconhece um amigo antigo. O riso e as conversas dessa noite davam a sensação de que já nos conhecíamos todos há muito mais tempo.


De volta ao Vale do Rio Branco
A chuva apareceu e transformou caminhos em espelhos. Descemos durante o dia sob um céu crivado de água e, ao anoitecer, refugiámo-nos num ger junto ao Rio Branco. Havia calor humano e calor do fogo. O som da chuva a bater no toldo parecia compor uma música de boa fortuna. Estes tempos levam-nos a perder-nos em algo maior do que nós.
Os ger são habitações tradicionais dos nómadas mongóis, concebidas para acompanhar um estilo de vida móvel e adaptável às condições extremas das estepes da Mongólia.
A estrutura cilíndrica do ger e a cobertura em feltro e tecido proporcionam um excelente isolamento térmico, mantendo o interior quente durante os rigorosos invernos e fresco no verão. A construção é modular: uma armação de madeira flexível sustenta o telhado em formato de cúpula, enquanto o feltro e a lona protegem contra o vento, a neve e a chuva. Esta simplicidade engenhosa permite desmontar e montar o ger rapidamente, facilitando a migração sazonal com os rebanhos.
Apesar de portátil, o ger oferece conforto e um ambiente acolhedor, funcionando como ponto de encontro da família e centro da vida doméstica. Hoje, continua a ser usado tanto por nómadas como em contextos turísticos e culturais, preservando uma das tradições mais emblemáticas da Mongólia.

Entre a serenidade da água e a vastidão do horizonte, cada um encontrava o seu espaço mais íntimo. Ficámos a olhar, como quem sabe que certos lugares não se explicam, apenas se guardam dentro.

Do Vale Negro ao Vale dos Ursos
Retomámos o passo rumo ao Vale Negro. O nome encaixava-se na sombra das encostas, no silêncio das árvores, naquele tom escuro que a luz do fim da tarde fazia nascer nas pedras. Caminhámos longos trechos, às vezes em silêncio, outras vezes trocando histórias que só o cansaço e a paisagem conseguem permitir.
Atravessámos o Takhilt Pass e descemos pelo Vale dos Ursos. A passagem alta deu-nos réstias de paisagem que se estendia sem pedir licença; a descida trouxe memórias de trilhos antigos e do modo como a terra guarda pegadas humanas e animais.
Descemos o Vale Takhilbai e seguimos até ao Lago Verde. A água era um espelho límpido, e sentámo-nos à beira como se fosse um altar calmo. Havia uma quietude capaz de fechar os olhos e, ao mesmo tempo, de apontar ao que ficou por dizer durante os dias de caminhada.
Entre a serenidade da água e a vastidão do horizonte, cada um encontrava o seu espaço mais íntimo. Ficámos a olhar, como quem sabe que certos lugares não se explicam, apenas se guardam dentro.
Erguemos o último acampamento nas margens do lago Khoton, onde as montanhas se refletiam nas águas serenas. Um quadro de silêncio e beleza, destinado a permanecer para sempre na memória.


Um regresso que não cabe numa lista
Voltámos a Ölgii, mas no caminho parámos para visitar os chamados eagle hunters. Ver os ensinamentos que atravessam gerações foi um momento de pura antropologia afetiva.
As águias dos Eagle Hunters da Mongólia são aves
de rapina impressionantes, conhecidas pela sua força, visão aguçada e habilidade de caça. Criadas e treinadas desde jovens pelos caçadores nómadas,
estas águias são essenciais para a sobrevivência em regiões montanhosas e áridas, onde a caça de pequenos mamíferos, como raposas e marmotas,
complementa a alimentação das famílias. A relação entre o caçador e a águia é intensa e baseada em confiança e respeito: a ave responde a comandos específicos e caça sob a orientação do seu mestre, demonstrando uma ligação única entre humano e
animal.
No voo para Ulan Bator, fomos recolhendo as últimas imagens. Os vales vistos à distância, as manchas brilhantes de água, as tendas pontuando a planície como respirações. A capital recebeu-nos outra vez, mas nenhum de nós era já exatamente o mesmo.
No regresso ficam detalhes que não cabem numa lista: o cheiro da lã húmida, o bater das asas sobre um vale, o riso partilhado numa noite de chuva, o silêncio que se abre entre um passo e outro. Viajar é também acumular esses pequenos tesouros e trazê-los de volta para os dias de cidade, para que nos lembrem que o mundo é, por vezes, mais vasto do que a pressa permite ver.


TRAVESSIA NO ALTAI DA MONGÓLIA
Este programa será marcado pela descoberta dos glaciares e dos lagos azuis cintilantes. Faremos a ascensão do pico Malchin acampando sob as estrelas e abraçados por vales imponentes. Nesta região pouco frequentada, faremos um dos trekkings mais bonitos do Altai. Uma viagem incrível, que ficará gravada na memória e no mapa de experiências de cada um.
