Numa época ultra mediatizada, em que as notícias correm o mundo em escassos segundos, ainda é possível estar longe de tudo e de todos. Desligados do mundo. Por momentos, tive a sensação de ter entrado numa realidade paralela.

O PEQUENO TIBETE


A história pode começar no Rio Indo, que tem origem no planalto tibetano, atravessa o Ladakh e Caxemira e corta o Paquistão duma ponta à outra. É nele que tem origem o nome da Índia. E é nele que desagua o conflito entre a Índia e o Paquistão. Na noite de 7 para 8 de maio de 2025, o Paquistão atacou Caxemira com drones e mísseis.

Foi durante a nossa primeira noite no Vale de Markha. Dormimos numa aldeiazinha chamada Sara. Não soubemos de nada.  


Texto de Barbara Baldaia 

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Sem telemóveis, sem o GPS da Garmin, sem comunicações de qualquer espécie, a notícia não nos chegou. Só três dias depois ficamos a saber que ali ao nosso lado, a escassos 250km em linha reta, estava a decorrer uma guerra com troca de drones e de mísseis.

A sensação é muito estranha. Estar a decorrer um confronto ao nosso lado e não o sabermos. Numa época ultra mediatizada, em que as notícias correm o mundo em escassos segundos, ainda é possível estar longe de tudo e de todos. Desligados do mundo. Por momentos, tive a sensação de ter entrado numa realidade paralela. Estávamos ali nós e as montanhas.

O trekking do Vale de Markha leva-nos por montanhas sagradas, por vilas isoladas e por momentos de introspecção que ficam connosco muito depois de voltarmos à civilização.

Ao jantar, o dal de lentilhas fumegante e os momos caseiros partilhados à volta da mesa fazem-nos esquecer o frio da noite lá fora. As famílias vivem de forma simples, ligadas aos ciclos da natureza, e há algo de reconfortante nisso. No silêncio, ouvimos o som do vento a passar pelas bandeiras coloridas, que tremulam incansáveis nos cumes das colinas.

O trekking do Vale de Markha leva-nos por montanhas sagradas, por vilas isoladas e por momentos de introspecção que ficam connosco muito depois de voltarmos à civilização. É o tipo de viagem que transforma. E no final, ao olhar para trás, damos por nós a sorrir com uma certeza tranquila: há lugares no mundo onde a alma se sente em casa..

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A subida até ao acampamento de Nimaling, aos 4700 metros, foi feita debaixo dum nevão. A neve caía em silêncio, pintando de branco as encostas áridas do Ladakh, e a única coisa que se ouvia era o som ritmado das botas a rasgarem o trilho e o bater do coração em altitude. Apressamos o passo, a respiração torna-se mais audível e a paisagem mais onírica.

O Vale de Markha leva-nos a uma viagem sensorial, cultural e espiritual por um dos recantos mais impressionantes dos Himalaias indiano. À medida que se sobe vale adentro, o cenário vai-se transformando: vales amplos cobertos de erva seca, gargantas esculpidas pela água, planaltos onde yaks pastam sob o olhar atento dos pastores locais. As aldeias são pequenas jóias tibetanas suspensas no tempo e as casas são construídas em pedra e argila, com telhados planos para secar os cereais ao sol.

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O ponto alto da travessia é o Kongmaru La, a 5260 metros de altitude. A subida é dura e o ar rarefeito exige persistência. Mas quando se chega ao topo, a vista é arrebatadora: um mar de picos nevados que se estende até ao horizonte, com o poderoso Kang Yatse a dominar a paisagem como um gigante adormecido.

A emoção desse momento é difícil de descrever. É uma mistura de conquista, humildade e uma ligação profunda com a natureza bruta que nos rodeia.

Ao nosso redor, o Ladakh revela-se em toda a sua grandiosidade: cadeias de montanhas que se perdem na distância e vales profundos desenhados pelo tempo.

Aqui, o tempo parece suspender-se. O vento sopra forte, cortante, levando consigo as preces das bandeiras de oração. Ao nosso redor, o Ladakh revela-se em toda a sua grandiosidade: cadeias de montanhas que se perdem na distância e vales profundos desenhados pelo tempo. Lá em baixo, o trilho serpenteia como uma cicatriz antiga na paisagem.

A travessia do Kongmaru La não é apenas física; é uma travessia de limites, de silêncios e de uma vastidão que nos coloca no nosso lugar no mundo.

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No caminho para o Lago Pangong, cruzámos uma zona fortemente militarizada. Postos de controlo alinhavam-se ao longo da estrada, soldados de olhar atento e armas ao peito, prontos para partir a qualquer momento. A tensão era visível, quase palpável, mas à medida que subíamos para além dos 4200 metros, ela foi dando lugar ao assombro.

Quando o lago finalmente surgiu, entre montanhas desérticas e céu aberto, foi como entrar noutro mundo. As águas iam do azul profundo ao turquesa translúcido, mudando de tom com a luz e o vento, espelhando o silêncio das alturas.

No regresso a Leh, encontrámos uma cidade que parecia suspensa e estranhamente calma. O espaço aéreo tinha sido fechado. Todos os voos estavam cancelados.

Éramos os únicos turistas na cidade. Ninguém conseguia entrar. Ninguém conseguia sair. Mesmo depois do cessar-fogo assinado a 10 de maio, os voos não foram retomados. Leh tornou-se uma espécie de ilha remota, isolada do resto do mundo, e nós, náufragos de uma aventura que ainda não tinha terminado.

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Passámos os dias seguintes a preparar o plano B para sair de Leh em direção a Delhi, com uma estranha serenidade na incerteza.

No final, tudo se resolveu. No dia dia marcado, o voo para Delhi tinha sido reativado. Levantámos voo entre os cumes nevados, com um alívio quase eufórico. Mas ficou aquela sensação de termos vivido uma história dentro da História — uma travessia pelas montanhas do Ladakh entre paisagens intocadas, mas também entre os ecos do conflito.

O Indo corria lá em baixo, indiferente a tudo, como sempre.

LADAKH, O PEQUENO TIBETE

No próximo ano, temos algumas alterações neste programa, que o tornam ainda mais interessante.

A partir de Leh, seguimos rumo ao planalto do Changtang, uma região remota, onde faremos um trekking memorável junto aos lagos de Tso Kar e Tso Moriri.

No final do percurso, subimos ao Mentok Kangri (6250 m). A subida é opcional e quem preferir pode simplesmente desfrutar deste trekking e da envolvência natural.

 

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