
UPCHE HIMAL: SILÊNCIO ACIMA DOS 6.000 METROS
Há montanhas que suspendem o instante.
Quando subimos, o tempo deixa de correr como o conhecemos. Reduz-se ao som, ao espaço entre um olhar e o horizonte.
Foram dias de silêncio, de frio, de esforço e de gestos pequenos. Aqueles que, lá em cima, fazem toda a diferença.
Texto de Pedro Guedes
Às vezes esqueço que é disto que gosto: de lugares sem certezas, longe de tudo. Onde só existimos nós, o instinto e a capacidade de decidir bem quando tudo é imprevisível.
Olhar para o vazio
Vivemos semanas intensas numa zona remota do Himalaia, onde alcançámos o cume central do Upche, a mais de seis mil metros de altitude.
Às vezes esqueço que é disto que gosto: de lugares sem certezas, longe de tudo. Onde só existimos nós, o instinto e a capacidade de decidir bem quando tudo é imprevisível.
Na montanha não há discursos bonitos nem frases feitas. Há olhares, gestos simples entre as pessoas e um respeito que dispensa palavras.
Às vezes, o nada é o sítio mais cheio que existe.


Nos pequenos gestos
Uma ascensão vive dos detalhes: derreter neve, ferver água, preparar o café. Gestos pequenos, mas é neles que tudo começa a correr bem.
Montanha é paciência. É cuidado.
É aceitar o ritmo que ela impõe, sem querer mais do que o dia permite. É aprender a fazer tudo devagar, com atenção. Porque em altitude, até o mais simples se torna essencial: respirar, aquecer, esperar.
Talvez seja isso que me prende a estas montanhas mais remotas: a simplicidade de existir apenas para avançar mais um passo.
A intensidade da partida
Esta expedição teve um peso diferente. Sabíamos que seria exigente: uma subida em autonomia total e sem equipas locais.
Cada passo exigiu mais esforço, mas também devolveu sentido ao que procurávamos: o espírito de exploração, a alegria de descobrir um caminho que é só nosso.
Foram semanas em que o mundo ficou distante e o tempo perdeu a pressa. À noite, o som do vento corria pelos vales e éramos a única companhia uns dos outros. De dia, caminhávamos em silêncio, guiados por instinto e confiança.
Há lugares assim, onde percebemos que tudo o que nos rodeia é maior do que nós.

As pessoas viviam num tempo antigo, alheias à pressa do mundo. Havia algo de puro nesse ritmo lento, como se a vida tivesse ficado com mais valor ali, escondida entre os muros e as orações.

O trekking de Naar Phu
Começámos o trekking no vale de Phu, um dos recantos mais isolados do Nepal.
É um percurso que conhecemos bem do nosso programa Vale Secreto de Naar Phu.
Os primeiros dias foram de reencontro com o essencial: a beleza dos caminhos, o vento frio a rasgar as manhãs altas, o eco distante dos iaques. A paisagem era áspera e impactante, feita de tons ocres e azuis impossíveis. Os rios desciam do degelo, cortando a rocha na montanha.
As aldeias surgiam discretas, moldadas em pedra e silêncio. As pessoas viviam num tempo antigo, alheias à pressa do mundo. Havia algo de puro nesse ritmo lento, como se a vida tivesse ficado com mais valor ali, escondida entre os muros e as orações.
Até ao campo base
Fizemos um dia de descanso e aclimatação em Phu, onde visitámos a aldeia e o mosteiro que domina o vale. Os locais, de origem tibetana, observavam-nos em silêncio, com um sorriso tranquilo, como quem já compreende o peso e a leveza de ir para cima.
Seguimos depois pelo caminho que nos levaria ao campo base. O percurso alternava entre o vale e planaltos suspensos. Cruzámos pontes de troncos sobre rios congelados, passámos moreias instáveis, lutámos contra os sinais de altitude que testavam, a cada curva, a nossa vontade de continuar.
Montámos o campo base a cerca de 4.600 metros, num amplo vale glaciar. À frente, uma das pontas do Upche erguia-se em forma de pirâmide e elegante.


O primeiro carregamento aos 5.400 metros
A partir do campo base, cada movimento era uma conquista. Levávamos o material às costas. Subíamos devagar, ouvindo apenas o som dos passos e da respiração.
Montámos o campo 1 num pequeno planalto de neve endurecida, a 5.400 metros. O vento era constante e cortante, mas havia um certo conforto em saber que estávamos a avançar, mesmo devagar, mesmo cansados.
As noites eram longas e frias. O barulho do fogão, a água a ferver, o cheiro do café da manhã seguinte. Tudo ganhava um valor desmedido. Esses gestos simples tornavam-se âncoras num mundo de gelo. Sem apoio de sherpas nem equipas locais, cada subida custava mais. A grande altitude, tudo é mais lento.
Subindo os campos de altitude
Descansámos mais um dia em campo base. Parte da carga já estava no campo 1 e todos sentiam o peso do esforço. Agora seria sempre a subir, dormindo mais alto. Não voltaríamos a descer ao campo base.
Mais adaptados à altitude, o caminho foi tranquilo até ao campo 1. Jantámos cedo, ainda com o sol a tocar as cristas. Derretemos neve, bebemos com calma, deixámos o corpo abrandar. Foi uma noite serena, sob um céu tão claro que parecia palpável. As montanhas à volta dormiam em silêncio, e nós com elas.
Essas noites longas são o verdadeiro treino da montanha: ficar quieto, resistir à pressa, aceitar o frio como parte do caminho.

Os passos lentos, a respiração curta, os pensamentos mais simples. A paisagem mudava a cada metro. O branco e o azul fundiam-se num silêncio quase absoluto.

Campo 2
Até campo 2, a montanha mostrou um pouco o seu lado mais técnico. Atravessámos a moreia glaciar, procurando o caminho no meio do caos de blocos e gelo.
A altitude continuava a fazer-se sentir. Levámos toda a carga para estar mais dias em campo 2 e não fizemos carregamento para esse campo. Os passos lentos, a respiração curta, os pensamentos mais simples. A paisagem mudava a cada metro. O branco e o azul fundiam-se num silêncio quase absoluto.
Montámos o campo 2 a 5.600 metros, numa plataforma plana junto ao glaciar.
O cume parecia perto, mas na montanha o “parece” é sempre uma ilusão.
Havia uma linha de água junto às tendas, o que nos poupava o trabalho de derreter neve. Um pequeno luxo em altitude. O fim do dia foi de uma beleza absurda: o Ratna Chuli e o Upche Himal iluminados pelo sol baixo, o vento leve e uma calma que só existe lá em cima.
O glaciar e o colo do Upche La
No dia seguinte, aproveitámos para aclimatar e estudar o caminho até à passagem do Upche La, a 5.800 metros. Seguimos pelo glaciar, marcando o percurso entre fendas e blocos, atentos à luz e às sombras.
A ideia era simples: preparar o corpo e a cabeça para a noite da ascensão. Mas havia também o prazer de caminhar sem pressa, de sentir o gelo a ranger sob os crampons, de saber que cada passo nos aproximava de algo que ainda não sabíamos nomear.
Voltámos ao campo para hidratar, descansar e rir. O riso é uma forma de resistência na montanha. Sem ele, as dificuldades entram mais fundo. Nada se faz ali sem espírito de equipa, e nada vale a pena se for só esforço.


Até ao cume
A subida começou ainda de noite, sob um céu cheio de estrelas. A luz das frontais a recortar o escuro. Era apenas isso que existia.
À medida que o dia nascia, o horizonte foi-se acendendo. O Ratna Chuli ao lado, o Annapurna distante, o Tibete logo ali atrás, invisível e perto. A última parte exigiu mais. A neve fresca fazia cada passo pesar o triplo, mas havia uma serenidade estranha, como se o corpo já soubesse o caminho.
Chegámos ao cume central do Upche Himal em silêncio. O sol subiu devagar, dourando as cristas, e por um instante o esforço pareceu leve. O vento trazia o frio, mas o que se sentia era leveza. Não houve gritos nem grandes palavras, apenas abraços. A alegria vinha da certeza de termos estado juntos até ao cimo.
Lá em cima, nada se explica. Há apenas o horizonte: vasto, imóvel, infinito.
O regresso e o que ficou
A descida foi atenta, dando a distância certa nas cornijas e saltando as crevasses no glaciar. Desmontámos todos os campos e o regresso teve sabor a despedida: o chão firme, o cheiro da terra, o som da água a correr.
O branco do gelo foi dando lugar ao castanho das pedras e o silêncio foi sendo trocado por vozes, animais e fumo a sair das casas. A sensação era de regressar, mas com outra calma, como se algo em nós tivesse ficado lá em cima.
Talvez o que fique depois de uma montanha assim não seja o cume, mas a forma como ela nos muda. Como ensina a estar presente, a respeitar o tempo, o espaço e o silêncio. Porque há lugares que ficam a viver connosco numa eternidade efémera.

